O Caso Isabel

-Eu não sei bem como explicar o que eu quero discutir com você, é um assunto de trabalho, mas também é pessoal e também, sei lá, filosófico.

-Você parecia mesmo meio esquisito no telefone. Vai, começa do início. Tô de boa.

-Certo. Começa com um cara chamado Júnior me procurando na minha sala. O problema: ele tem uma namorada, com quem vai casar ainda este ano, mas está num dilema, porque acha, e eu repito o que ele disse, que “ela não está se guardando” para o casamento.

-Mas isso é comum, né, contratar detetive pra descobrir traição, coisa assim?

-É, então, isso é super comum. Traição é quase todo o meu negócio, se você pensar bem. Ou a pessoa quer descobrir se está sendo traída ou então já sabe e só quer colher provas pra entrar no meio de uma disputa patrimonial, entende? Muitas vezes o fundo da questão é patrimônio, entendeu, não fidelidade propriamente. Às vezes é guarda também… Mas o caso desse cara era diferente. Você vai no whisky comigo?

-Ah, pode ser. Whisky.

-Ô Lima, traz aquela minha garrafa por favor, e também aqueles negocinhos que vocês têm pra beliscar.

-Sério, Carlão, que você tem uma garrafa no estabelecimento, haha?

-Lógico! É muito mais barato! Não faz sentido ficar pagando dose, né? Mas então, o que eu tava te falando é que o caso desse cara era diferente, eu percebi logo de cara. Primeiro, porque a garota em questão era a namorada, e não esposa, depois, porque o cara ficou falando pra mim da importância da menina casar virgem por, sem nenhuma sacanagem, uns 20 minutos. O cara é evangélico, sei lá.

-Sei. E você pegou o caso?

-Peguei, com uma certa antipatia do cara, isso eu não posso negar. Esse negócio da mulher casar virgem, se guardar e tal, achei tudo um pé no saco. Mas também não fico por aí escolhendo cliente a dedo, não é isso?

-Certo.

-Então, parti pro trabalho, segui essa mulher por três dias. E é aí que vem a questão que eu quero discutir com você.

-O que foi que você descobriu?

-Tá aqui meu relatório.

-É pra eu ler?

-Não, deixa que eu leio algumas partes pra você. Tem muita coisa aqui que não interessa, coisas que não são legais de você ver, coisa e tal. Mas confia em mim, eu vou ler os três trechos que fazem sentido pra nossa discussão, o relato dos três dias em que eu a segui.

-Certo.

-Vai o primeiro:

Dia 1 – quinta-feira

São dezenove horas em Brasília, ouço no rádio. Há meia hora observo Isabel na praça do Museu da República. Sinto um pouco de sono. Isabel é tão fresca, que sinto pena por não estar tão atento. É uma cena bonita. Isabel sentada no banco da praça de concreto. Bebi demais ontem, meu corpo já não é o mesmo. O cabelo de Isabel voa. O vento de agosto. Percebo a pressa de todos que vão à rodoviária e passam por mim. Sinto o calor do concreto fervido pelo sol do cerrado sob os meus pés. Como é que esse povo tolera uma praça feita de concreto? Uma garça aparece no espelho d’água, como contraponto. E daí? Ainda é uma praça de concreto. Isabel se levanta apressada. Em direção a um carro que acaba de parar em frente ao meu. Me acomodo para dirigir, satisfeito com alguma ação, finalmente. Provavelmente terei que seguir este carro, penso, já botando o cinto. Isabel chega arfando, com um sorriso de menina. E vai direto para o colo do motorista. Pernas ágeis, leveza de pluma. Cato a máquina e começo a fotografar, mas noto que não preciso me esconder muito. Isabel beija o motorista ostensivamente, ao mesmo tempo que olha no olho de quem quer que passe. De vez em quando gargalha, e aí já é uma mulher, eu lembro de pensar. O motorista puxa o decote de Isabel até mostrar um seio, inflado pelos elásticos do sutiã. Lambe publicitariamente. Engole, morde. Tiro uma quantidade indecente de fotos, não estou acreditando no que eu estou vendo. Uma senhora que passa faz as vezes de chamar a polícia. Uma movimentação começa. Isabel se arremessa para o banco do passageiro, novamente às gargalhadas. O carro dá a partida. Sigo. Motel. Dou a noite por encerrada, não posso mais. Mas me pego com Isabel na cabeça. E a mão no pau.

-Carlão, o que que é isso? Caraca! Cara, em primeiro lugar, parabéns pela literatura, viu? Que relato! Do ca-ra-lho, parabéns!!!! Tô impressionado. Não sabia que você escrevia assim, cara! Agora… essa Isabel hein? … Sensacional, né não?!

-Bicho, ela é linda. E não é linda assim de um jeito banal não. Ela é uma mulher interessante, sabe? Livre … , sei lá…

-Posso ver as fotos? Você tem elas aí?

-Não, melhor não. Presta atenção ao relato do segundo dia, você vai entender melhor qual o problema. Posso ler?

-Vai.

Dia 2 – sexta-feira

 No dia seguinte resolvo novamente seguir Isabel. Não precisava. Eu tinha fotos suficientes para montar qualquer dossiê. Mas as coisas não podem ser resolvidas assim, na pressa, eu penso. É preciso observar mais, entender a situação. Eu também queria ver Isabel de novo. Paro para olhar as fotos, por um instante. Isabel. Isabel tem um seio lindo e um namorado que é um babaca. Fico no carro, em frente à sua casa. O Guará é um lugar onde se trafega em círculos, penso, repetidamente. Há toda uma população, mais ou menos fixa, circulando no céu deste planeta dentro dos aviões, penso também. Repetidamente. Chega visita, enfim. Um homem, não o mesmo de ontem. Câmera, foto, foto, foto. Não acredito quando vão para o jardim. Parece que o tesão da garota é mesmo se mostrar. Ela abaixa as calças do sujeito bem ali e começa a chupar o pau do cara, a lamber o saco, a ordenhar. Posso ouvir os gemidos dos dois e até me acomodar numa posição confortável na cerca, coberta de cipreste. Escuto o que dizem. Estou tirando fotos de fotonovela! Não paro de clicar. Isabel de quatro, o homem a pegando pelas ancas. Isabel dando o cu. Isabel com cabelos que voam. Isabel bicho solto. Tudo termina. Vou poder escolher as melhores fotos. Arte. Meu pau tá duro. Isabel dispensa o cara sem mais delongas, enquanto repasso as fotos no visor. Volto pro carro, recomponho o diálogo que escutei. Quero escrever. “Ah, Isabel, olha como você tá toda molhada … um dia ainda como essa tua boceta”. Releio a frase. Será que a Isabel nunca deu a boceta pra esse cara? Desço a mão pro pau sem saber se me masturbo ali mesmo ou se deixo pra depois. Deixo pra depois. Não é comum eu ficar envolvido assim com um caso, penso. Ligo o carro.

-Bicho, que onda! Como é que é o seu processo assim, de escrita, hein? Não, porque esse é um relato massa, Carlão! Sério, me deu tesão de ouvir. Meu querido, pa-ra-béns! Literatura policial clássica, sabia disso? Detetive neurótico, meia idade, com pensamentos obsessivos … subitamente atravessado pelo frescor da juventude de uma mulher, que parece ter um segredo. Um cláaaaassico noir, meu velho! Em pleno Planalto Central!

-Você percebe que este não é o foco, né, Zé Roberto? Literatura?

-Ah, sim, tô entendendo completamente a questão. Tô acompanhando, tô acompanhando. Você ficou intrigado com o diálogo e ficou intrigado também porque ficou pensando nela direto.

-Isso, certo. É isso aí. Presta atenção agora, no último dia, que foi anteontem.

Dia 3 – segunda-feira

Vou cedo pra frente da casa de Isabel. Não parei de pensar nela no fim de semana. Aproveitei o sábado para pegar com o Alfredo o aparelho para fazer escuta de celular. Tempos difíceis. Estamos tendo que dividir a máquina, eu e o Alfredo. Cara demais, mesmo comprada em Miami. Decido que este será o último dia de trabalho, a pergunta do namorado já está mais do que respondida. Isabel sai de carro. Trabalho. Nada relevante na escuta. Mãe, Júnior (que segue sendo um babaca), assuntos de trabalho. Hora do almoço. Como qualquer coisa, coxinha de galinha e refrigerante. Pra pensar melhor. Ou pra irritar mais o estômago, não sei. Isabel sai. Para num sex shop. Me emputeço, algum moralismo fora de hora. Segunda-feira? Sex Shop? Essa mulher só pensa em sexo? Bati punheta dois dias inteiros pensando em Isabel, olhando pras fotos. Isabel. Isabel sai da loja com uma sacolinha rosa e brilhante. Uma menina, de novo, anda aos saltitos. Eu entro na loja. Conversa de três minutos com a balconista. Isabel comprou um plug anal e um lubrificante que esquenta. Já estou sabendo da preferência da moça pelo cu. Certo. Volto pro carro. Algo interessante na escuta. Conversa entre amigas. “Sério, Isabel, não sei como que você aguenta levar essa vida. Eu não entendo como é que você se segura, se fosse eu não aguentava um minuto”. “Olha, não é fácil mesmo, mas é possível, entendeu, é porque eu quero muito. O que você não entende é que eu quero casar virgem, na Igreja. Gente, qual o problema? E tem também o seguinte, adoro que mexam no meu cu, que lambam o meu cu, que metam no meu cu. Por enquanto, assim tá maravilhoso!”. “Eu sei, eu sei, nossa Isabel, que linguagem! Agora, quando você sentir um pênis entrando na sua vagina, eu queria tá lá pra ver. Você não vai acreditar no tempo que você tá perdendo, haha”. Suspiro. Não acredito no que estou ouvindo. Mudam de assunto. Combinações para a semana. Algo sobre Igreja. Desligam. Fecho os olhos. Me dói o fundo do olho esquerdo. Isabel gostosa. Isabel doce. Isabel dando o cu. Isabel maluca de Igreja.

-Ah!

-Sentiu o drama? Entendeu o problema?

-Total. Entendi perfeitamente. Agora, essa Isabel é o seguinte, hein? Complexa, multifacetada… muito bom. Além disso desafia conceitos cruciais! Dá, dá, dá, mas continua virgem!

-É isso.

-Além disso, você se apaixonou por ela.

-É. É isso, é isso.

-Agora, achei massa essa irritação do detetive, sabe? Essa irritação estomacal, moral, ótica,.. isso ficou muito bom. E muito legal também é usar a Isabel como contraponto… uma mulher cheia de tesão, de vontade de viver, que não tá nem aí de manter esse troço delicado, doce, de transar só com o cu. Só com o cu não, menos com a boceta. Tudo bem, a coisa da religião é meio assustadora, você vai ter que trabalhar isso aí pra Isabel não ficar com cara de maluca, burra, sei lá. Isso pode estragar o texto, tá ligado?

-Zé Roberto, olha só, velho, massa que você tá gostando do texto. Fico honrado e tal. Podemos discutir isso depois e tudo mais. Mas agora o problema é outro, entendeu? Hoje tive que conversar com o Júnior na minha sala, tá entendendo? Sendo que não paro de tocar punheta pensando na namorada dele. Você pode imaginar o que passou pela minha cabeça antes de falar com esse cara? Eu fiquei desesperado! Afinal, Isabel está ou não está se guardando para o casamento? É virgem ou não é virgem? E que porra de casamento é esse? Que porra de religião é essa? Isabel vai se casar com esse cara? Tá me entendendo? Qual o sentido disso tudo?

-Tô te entendendo Carlão, calma… então você já falou com o namorado.

-Já. Falei hoje. Te liguei saindo da minha sala, depois de falar com ele.

-E então? O que que rolou?

-Bicho, eu tava decidido a falar tudo o que eu vi. Escolhi as fotos mais feinhas, separei. Chamei o cara. Aí chega o tal do Júnior, senta e me pergunta ansioso. “E então, ela é virgem?” Respondo: “Sua namorada sabe se divertir, mas tudo indica que é virgem.” Ele me olha atravessado. Olho bem no olho do cara, disposto a contar tudo. Empurro o meu relatório na direção dele. Ele, antes que eu começasse a falar: “O que eu quero saber é se o hímen está intacto”. Olho ainda mais dentro do olho no cara e respondo: “Sim, tudo indica que sim. Quer ver meu relatório?”. Sabe o que ele diz? “Não, estou satisfeito”. Me paga, e vai embora.

-Noooossa! Cena de cinema!

-Dá pra entender?

-Uau ! Mas pensando bem, melhor assim, não? E a Isabel? Você vai falar com a Isabel?

-Não, a Isabel nem sabe que eu existo. Nem vai saber. Sou só eu, as punhetas e as fotos da Isabel nesse caso. Mas o que eu não consigo é ver o sentido disso, entendeu? Qual o sentido disso tudo? Só tem maluco nessa porra?

-Carlão, olha só: aparentemente, na estória, tá todo mundo bem, fazendo o que quer … menos você, o detetive.

-Zé Roberto, presta atenção, eu não quero falar de estória! O que eu tô precisando entender é o sentido disso tudo, entendeu? Que porra é essa? Que loucura é essa?

-Você vai escrever essa parte?

-Ahn?

-Me escuta. Você vai escrever essa cena aí do seu encontro com o Júnior?

-Porra! Sei lá, Zé Roberto!

-Carlão, presta atenção no que eu vou te falar, isso é muito sério e eu descobri faz pouco tempo. É o seguinte, em primeira mão. Escuta: A vida, a vida ela não tem nenhum sentido, ela não tem sentido algum, agora, a narrativa, essa sim, a narrativa TEM! … Sacou? Entendeu?

(…)

***

-É isso… Só dá maluco. .. Ô Lima, fecha a conta, meu filho, que eu preciso sair daqui.

-Carlão, vai por mim, meu velho, escreve …. tô falando… E as fotos? Deixa eu ver as fotos?

8 Comentários

Arquivado em Carlão

8 Respostas para “O Caso Isabel

  1. Hetera

    adoro esse

  2. Curioso

    Talvez o sentido da vida esteja nas fotos da Isabel e no texto do Carlão.

  3. Marina Andrade

    uma narrativa boa prende mesmo, dá sentido e impulsiona a vida!!!

  4. Marina Andrade

    adorei!!

  5. aracyroza

    HAHAHAHAHAHAHAHA… excelente!

  6. Noélia Ribeiro

    Parabéns por mais uma história impura!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s