Os Pintos de Eunice

Invariavelmente, Eunice dizia: Só brinco se mostrar o pinto. Todo jogo, toda brincadeira, era isso. Se os meninos não mostrassem o pinto, Eunice não brincava. Com as meninas não tinha disso. Eunice só queria mesmo era ver os pintos. As amigas, num misto de solidariedade, excitação e nojo, ajudavam. Afinal, Eunice era uma amiga formidável. Formavam uma rodinha, traziam o menino pro meio e tudo se resolvia.

A maioria dos garotos tratava o rito com pouca curiosidade. Baixavam o short e olhavam pra cima. Quando Janice dizia “ok”, se vestiam e saiam correndo. Janice, é bom que se diga, era a melhor amiga de Eunice. Desde que Eunice gaguejou numa rodinha, Janice tinha assumido os trabalhos. Era ela que organizava a fila, botava ordem na roda, vigiava para ver se vinha algum adulto. Eunice, por sua vez, olhava. As outras meninas, essas davam risinhos.

De todos os garotos, só Márcio ficava mexido. Uma vez, tendo pedido permissão à Janice, assim, com o olhar, abordou Eunice bem no meio da roda: Quer pegar pra ver como é? Eunice não respondeu. E-ca! – disseram as outras em coro. De outra vez, enfrentou: Só mostro se você mostrar também! Nesse dia saiu da roda sob os tapas de Janice.

Essa situação foi deixando Márcio cabisbaixo e ensimesmado. A cada dia examinava mais e melhor o próprio pinto. Tentava fazer ele ficar duro, atender ao seu comando, se olhava no espelho, assim, de lado. Sonhava todos os dias com a rodinha, sentia que precisava melhorar, fazer um truque, sei lá. Pensava, matutava, mas não conseguia entender. Será que a Nicinha gosta do meu pinto? Esse era o pensamento que o assaltava. E por isso vivia numa consumição.

Num dia de chuva, Márcio encontrou Eunice sozinha na quadra, correndo pra casa. Sem Janice. Seu coração disparou quando lançou a pergunta: Bora brincar, Nicinha? A resposta de sempre o comoveu: Só se você me mostrar o seu pinto. Catou então a mão de Eunice para correrem pra baixo do bloco A. Ofegantes, encostaram na pilastra. Pela primeira vez, fora da rodinha, Márcio botou o pinto pra fora pra Eunice ver. Ato contínuo, inovou: trouxe a mão de Eunice pra pegar nele. Foi assim, com a mãozinha de Eunice apertando o seu pinto, que Márcio finalmente perguntou: Nicinha, você gosta dele?

Azar. Nesse momento entrou pela quadra, a toda, um carro da polícia com a sirene ligada. A chuva, nesse ponto, já era torrencial e do outro lado da rua uma mulher gritava furiosa: Eu-ni-ce!!!! Foi por causa disso que Márcio não entendeu palavra, quando Nicinha, logo antes de sair correndo, respondeu gaguejando: é o meu preferido!

Atônito, Márcio deixou-se sentar. Nesse dia, bateu a primeira punheta da sua vida. Como quem consola um filho triste.

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