Sete Meninos

Sete meninos numa roda, batendo punheta. Foi isso que Armando viu quando abriu a porta do quarto. Fechou rápido, com barulho. Levou a mão ao coração. O que tinha visto? Não sabia ao certo. Na porta, vibravam os últimos gritos dos garotos. “Fechessaportaaaa”! Indo na sua direção, o Guga. Quis morrer, mas ao invés disso, correu.

Correu pra bem longe. Pro jardim. Pra proteger os meninos? Não sabia. Guga atrás, Guga sempre atrás: quer brincar? Não queria. O que tinha visto, meu deus? Deitou-se na grama. Como Guga insistisse, aceitou o desafio de olhar pro sol. Quem sabe cegasse o chato do Guga. Fechou então os olhos. Deixou-se brincar no vermelho sangue. Contou: um, dois, sete. Sete ou seis. Com os pintos na mão. Bafo quente, suores. E rostos contorcidos. Olhou pro lado e lá tava Guga de novo. Olhando pra ele. Aquele garoto grudava. Tomou duas decisões. Primeiro ia se livrar do Guga; depois ia lá de novo, meter a mão na maçaneta.

Acontece que não era fácil despistar o Guga. O garoto, da mesma idade de Armando, sabia se fazer presente. Não caia em qualquer cilada não. Foi por isso que Armando resolveu chamá-lo, contrariado, pra empreitada. Disse assim: “Escuta, tem alguma coisa acontecendo lá no quarto dos meninos. Quer ir ver?” Foram. Com o devido cuidado, se aproximaram devagar da porta. Controlaram a respiração, ganharam confiança.Entraram.

Apenas meninos espalhados pelo quarto. Esta era a cena. Sim, eram sete. E estavam suados. O que teria acontecido ali? Impossível investigar, deu um minuto Armando e Guga já tinham sido expulsos da confraria (esses bebezinhos!). Armando, o que dizer, era a pura frustração. Arrastava-se pelo corredor. Foi aí então que Guga se apiedou, e o puxou para o banheiro.

Foi preciso que Armando apertasse os olhos pra entender. Sim, era ele um daqueles dois meninos no espelho. De pinto pra fora. Suado, abocanhado. Ele. Quis sumir, mas ao invés disso, suspirou, fechou os olhos e mirou a luz. Armando acha que esse foi o dia. Esse foi o dia em que ele se afundou, decididamente. No tal vermelho sangue.

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