Ficamos

– Que horas são?

– Hora da gente começar tudo de novo, ao que parece.

– Tô falando sério, você imagina que horas sejam?

– Olha, o que a tua boceta tá dizendo é que é hora de começar tudo de novo.

– É incrível isso, né? Se alguém me contasse eu não acreditaria.

– Isso, da gente não cansar nunca?

– Isso de eu ficar encharcada só por você me olhar, a essa altura. Mas sim, claro, é incrível que a gente não se canse nunca. É realmente incrível.

– E delicioso, meu deus, como isso é delicioso!

– Mas você acha que são que horas?

– Eu acho que tá de noite.

– Olha aqui, chegou outra mensagem no meu celular: por favor, dê notícias. São oito da noite, você acertou.

– Será que já estão botando polícia atrás da gente?

– Olha o seu, vê se tem gente te procurando.

– Porra, tem zilhões de mensagens.

– Temos que dar notícias. A gente sumiu faz quatro dias.

– Não, não quero. Cansei de perder tempo.

– Por que a gente não termina aquela mensagem que a gente começou ontem?

– Porque o que eu preciso é me meter em você agora. E o resto que se foda.

– Não, espera um pouco, tempo é que não vai faltar.

– Cadê a mensagem?

– Taqui. A gente começou assim: companheiros, amigos, chefes, colegas de trabalho, alunos, filhos… Esse começo tá bem ruim, né? Nem parece coisa de professores universitários.

– Tá, mas continua, quero ficar olhando pra você enquanto você lê.

– Então… alunos, filhos… (bem, depois a gente conserta isso),

Este testemunho é de um acontecimento. A notícia é que o encontramos. Encontramos o corpo. O encontramos, enfim. Podemos provar. Nós o vimos. Também o cheiramos, o tocamos, o ouvimos. Nos últimos três dias, o provamos. De língua. Em seus líquidos, massas, mucosas, penugens e mornidões. Engolimos todos os seus sucos. Entramos nos seus úmidos buracos, estudamos sua farta geografia, sua perfumaria, seu vocabulário. A verdade é que fomos iniciados.

É por isso que ficamos.

Ficamos porque agora saem de nossas bocas sons de obsceno deleite. Dizemos boceta, pau e cu como quem diz casa, comida e água. Palavras deleitosas agora jorram das nossas bocas sem aviso. Ganharam o poder de operar pequenos milagres, travestiram-se de coisas. Dizer foder, dizer comer, dizer meter é como usar as próprias mãos, é como tocar, é como ser tocado. Estamos hoje diante de uma boceta inundada e de um pau sem sossego, de dois corpos em cena, de uma intervenção, de uma obra de arte. A vida pulsa aqui. Não há nada fora. É por isso que ficamos.

– Escuta, você não acha que estamos falando demais não? Quem descobriu o corpo quer é foder, comer, gozar… Não quer ficar escrevendo nem pensando. A gente podia só dizer que tamo com o diabo no corpo e pronto.

– É, eu sei. É que não queria nem a polícia nem a psiquiatria aqui na nossa porta.

– Olha, mais cedo ou mais tarde vão bater aí sim, essa mensagem não vai impedir ninguém. Mas eu tenho certeza que quando virem a gente eles vão entender, vão sentir que não tem volta, quem sabe até façam votos de felicidade. Vão perdoar a gente, eu acho.

– Vou ler o resto, tá? Falta pouco.

– Tá, mas eu vou ficar te chupando. Que é pra ver você ficar sem ar enquanto lê, tá?

Estamos convencidos de que se encontramos o corpo é apenas porque dois corpos se encontraram. Específicos corpos, únicos corpos. Encontraram-se. Encaixes perfeitos, movimentos harmônicos, tesão atávico, nada mais nos surpreende. Podemos afirmar, neste ponto, que esses dois corpos foram mesmo arquitetados para se embolarem em fodas, um dentro do outro. Não faz sentido preocupar-se com o tempo. Perde-se a noção das horas, do sono e do sonho. Não faz sentido procurar outras parcerias. É aqui o milagre.

Por isso, não há retorno, queridos. Quando se encontra esse caminho, é injusto voltar, entendam. É por isso que ficamos.

Por aqui, celebraremos todos os dias o gozo abusado em que nos metemos. Vamos foder dia e noite, não importa o quê. Por aí, bem, por aí não nos importa. Vivam, fodam! Vá lá, que esses sejam os nossos votos.

Aceitem, portanto, o nosso adeus. Estamos melhor do que nunca estivemos.

Com carinho,

Laura Lins e Castro & Carlos Augusto Borges

– E então?

– Tá pronto, eu digo que tá pronto. Tá tudo aí e é tudo verdade. Dá o enviar.

– Sério? Damos o enviar? Não quer acrescentar nada?

– Não. Dá aí o enviar. Faz isso.

– Foi… e seja o que deus quiser.

– Ótimo. Agora vem aqui, minha gostosa, que eu quero te foder. Acho que a gente ainda tem umas quatro horas até arrombarem essa porta.

2 Comentários

Arquivado em Calcinha branca

2 Respostas para “Ficamos

  1. Adorei seu cantinho. Voltarei sempre. Bjs

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