No bloco S

– “Vou dar uma geral nas câmeras de segurança” – Essa era senha para que Malu se apressasse.

Maria Luíza era a filha menor do casal de porteiros do Bloco S da 309. O pai dava uma geral nas câmeras de segurança todas as segundas-feiras, perto do meio dia, justo quando ela estava almoçando. Por causa isso, nesses dias, ela tinha que engolir a comida de qualquer jeito. Em 15 ou 20 minutos tinha que estar na portaria, embaixo da mesa do computador, quieta e posicionada. Não era fácil correr para chegar à tempo e logo depois ter que controlar a respiração. Mas Malu aprendeu a gostar do gosto do risco, e mais ainda, do gosto do comando. Às vezes corria em desabalo apenas para ter o prazer de se recompor. Aprendeu a se aquietar à força. Aprendeu a se esconder.

Dar uma geral nas câmeras de segurança era, de fato, o que o pai fazia ao meio dia das segundas-feiras. Passava o olho rapidamente em todas as câmeras posicionadas embaixo do bloco, checava as dos elevadores sociais e descia pra garagem. Lá, com passos mais apressados, checava as últimas. Era só na volta dessa ronda que ele, sem alarde, redirecionava uma delas. Para a vaga do 508. É que o cara do 508 e a menina do 204 se encontravam ali, dentro do carro. Isso acontecia sempre que a mãe do garoto saía pro trabalho de carona. Nas segundas-feiras, por volta do meio dia e meia.

E esses dois vadiavam… Mal as portas do carro se fechavam vinha o primeiro beijo. Bocas apressadas no início, compassadas depois. Nenhum desperdício de gesto, de respiração. Mãos por todos os lados, pulsação de tesão guardado. “Sarro dos bons”, “Pegada forte”, balbuciava o porteiro com olhos fixos nas imagens capturadas pela câmera. Depois vinha mais. A garota montava por cima do cara – “Porra, que sacana, que gostosa”- , o cara mamava nos peitos da menina, – “Caralho, que tesão da porra”- até que não era possível ver mais nada, só rastros da movimentação dos corpos no banco de trás. “Porra, o que o banco desse carro já não viu!”, dizia sempre o porteiro, de pau na mão e olho na tela, esperando por mais.

Debaixo da mesa da portaria, Malu, ofegante, via o pau do pai crescer. Era incrível que ficasse daquele tamanho. E aquelas coisas, que ele só falava ali? Isso fazia sempre com que ela sentisse muita, mas muita vontade de fazer xixi – não importava quanta água tivesse bebido no almoço. Nessa hora  Malu apertava as coxas e segurava o xixi com força. Quando a vontade ficava muito forte, empurrava a mão pelo meio das pernas. O importante era não fazer barulho, se controlar e esperar o pai botar o leite pra fora. Depois disso, ele sempre dava uma corridinha em casa.

Era quando Malu surgia atrás dele, vinda do nada.

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