O caso João Pedro – parte um

No momento em que ela entrou na minha sala, tive a certeza de que não daria certo. Há muito tempo eu precisava de alguém para organizar meus livros, arquivar minha papelada, mexer naquele monte de papéis de tantos anos. Eu não tenho cabeça pra isso. Arrumar nada mais é do que classificar as coisas – uma namorada me ensinou isso. Acontece que classificar as coisas não é pra qualquer um. Sempre sobra um monte de coisas irritantes, inclassificáveis. Minhas alergias também são impeditivas. Eu morro se for mexer em tanto papel velho. Foi mais ou menos por isso que concordei com a sugestão do Alfredo, de que eu devia contratar alguém. Só por algum tempo. Uma arquivista. Mas tive a certeza de aquilo não ia dar certo. Assim que ela entrou.

Jaqueline talvez tenha sido a mulher mais charmosa que conheci. Não era bonita, propriamente. Mas sua presença me impelia a tratá-la assim, como uma beldade. Isso me constrangeu desde o início. Não sei se era o jeito que ela tinha de falar, um tanto afetado. Não sei se era o sorriso, o corpo esguio. Difícil dizer o que fazia dela uma mulher interessante. Mas ela me parecia linda. Logo que entrou, se apresentou como a arquivista. Olhou ao redor rapidamente, caminhou um pouco pela sala. Gastaria cerca de um mês ou dois pra organizar tudo se trabalhasse duas manhãs por semana. Eu não precisaria pagá-la, se a deixasse acompanhar um ou dois casos. Queria conhecer a rotina de um detetive, achava que poderia se interessar pelo ramo.

Lembro de ter dito algo como “Há um equívoco aqui”, enquanto minha mão buscava seu braço, para encaminhá-la até a porta. Depois disso, só me lembro do toque. Minha mão alcançando alguns centímetros de uma carne quente, firme e macia. Meu pau ficando alerta. É possível que eu tenha dito algo ambíguo, não sei. O fato é que Jaqueline voltou no dia seguinte, com arsenal para uma faxina: caixas, canetas, etiquetas, pastas e plásticos. Ficou.

***
Arrumação e bagunça são coisas muito parecidas na maior parte do tempo. Jaqueline trabalhava há uma semana e eu já estava irritado. Montes pequenos de papel já tinham se formando aqui e ali. Caixas iam sendo esvaziadas e novamente enchidas. Uma grande pilha de coisas se avolumava ao fundo da sala e uma folha colocada à frente delas me perguntava: “Lixo?”. Eu suspirava, desanimado. Responder caso a caso seria insuportável. Me desfazer de tudo, sem olhar, seria estúpido. Teria que dar ao menos uma passada de olho na porra toda, enfim. Inferno. Lembro que tinha essa palavra em mente quando o pai de João Pedro entrou na minha sala procurando um detetive.

João Pedro tinha desaparecido há mais de dois meses. Seu pai contou a mim e à Jaqueline tudo o que sabia em cerca de uma hora, quase que animadamente, no único lugar da sala em que era possível sentarmo-nos. João tinha dezessete anos e era um garoto tímido, com poucos amigos. Sua mãe faleceu quando ele tinha nove. A polícia nada tinha a dizer sobre o desaparecimento. Houve investigação, foram à escola do garoto, procuraram amigos, inimigos. Mas nenhuma informação relevante havia surgido. “Namorada?”, perguntei. Não, nunca tinha havido uma namorada. Iríamos à casa dele no dia seguinte.

****

Desde que nos abriu a porta, o pai de João Pedro nos mostrava tudo que podia. O quarto, os objetos, a cama, as roupas, os cadernos. Tinha real esperança de encontrar João Pedro, eu pensei. E eu ali, abobalhado. Dedicado a olhar Jaqueline se mexer. Que absurdo! O problema era a boca, concluí. Eu via a boca de Jaqueline se movendo e eu começava a pirar. Da boca, meu olho passava ao corpo, que eu ia despindo. Em coisa de segundos eu já estava com o pau inchado e em maus lençóis. Tinha que disfarçar, respirar, tentar retomar o fio da meada. Isso aconteceu pelo menos três vezes desde que saímos do escritório. Eu precisava de mais concentração no trabalho, isso era óbvio. E Jaqueline não estava ajudando.

Vasculhamos tudo o que foi possível sem o Alfredo. Passamos pelo histórico de navegação na internet, por arquivos recentemente mexidos. João Pedro tinha e-mail, facebook, usava twitter, essas coisas? O pai achava que sim. Precisaríamos do Alfredo, de qualquer forma. Foi então que Jaqueline perguntou, muito respeitosamente, se aproximando do pai e fazendo-o sentar à cama:

– Senhor, me desculpe, mas acho que o senhor, como um pai, deve ter alguma hipótese sobre o que aconteceu, não tem? O que o senhor acha que aconteceu ao João Pedro?

O homem começou a chorar.

Quando alguém começa a chorar, homens, mulheres, crianças, desejo secretamente sumir. Aquilo me irrita o estômago, eu perco o apetite. É uma espécie de desgosto ancestral. Me arrependo de estar ali, me arrependo de ter saído de casa, me arrependo de ter sido simpático. Mas estava lá o homem chorando. E entregando a Jaqueline a nossa primeira pista real sobre o desaparecimento de João Pedro. Um bilhete suicida.

O pai havia encontrado o bilhete por acaso, numa das gavetas de João Pedro há mais de um ano. Ficou assustado, de início, mas o tempo passou e ele foi tratando aquele papel apenas como um desabafo melancólico e adolescente.

Agora, chorava por pensar que o filho poderia ter estado realmente deprimido por muito tempo. Sentia muito por não ter levado o bilhete à sério, por não ter conversado. Morria aos poucos, todos os dias, de remorso.

(continua…)

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