O caso João Pedro – parte dois

(…)

No fim de semana que entendi que aquilo era uma espécie de ocupação. Jaqueline tinha se enfiado completamente no meu pensamento. Tudo, realmente tudo o que eu pensava ou fazia vinha junto com a imagem dela. Andar na rua, me vestir, comer. Tudo contaminado. Eu andava por aí de pau duro há dois dias. Entrava no banho pra me acalmar, e lá vinha a moça. Abria um livro, e lá vinha a moça. Ficava quase chato, até. Mas o tesão era incrível. Tinha hora que era como se eu a pudesse ver, como se já estivéssemos estado juntos. Jaqueline era uma alucinação, uma alucinação travestida de lembrança. E havia uma cena inventada. Minha cena preferida. Nela, éramos casados. Eu chegava em casa e dizia: “Cheguei, Jaque, vim beber os meus sucos”. Jaqueline então, largada no sofá, abria as pernas, puxava a calcinha pro lado e respondia: “Mama aqui, amor. Eu tava pensando em você”.

Vivi esta intimidade dezena de vezes durante o fim de semana. Em todos os banhos. Dirigindo, conversando com amigos, bebendo. Cena inteira, ou em partes. De frente pra trás e de trás pra frente.

Minha obsessão já me deixava esgotado, quando chegou a segunda-feira.

***

Cheguei atrasado na sala, precisava resolver problemas na rua. Jaqueline seguia na arrumação. Em cima da minha mesa, minhas pastas de poesia e contos soltos, todos empilhados. “Literatura?” – perguntava o papel por cima da pilha. Resolvi não responder à pergunta cretina. Empurrei as pastas pro lado, puto, e dei de cara com o bilhete de joão Pedro:

 

Pai,
Cheguei ao meu limite, não posso mais. Viver a vida toda assim em sofrimento, é muito tempo, é tempo demais. A felicidade, ela é uma só, e eu não consegui encontrar aqui. Mas tudo bem, eu estou bem, acredite, assim eu vou poder descansar disto tudo, quem sabe renascer. Eu estou partindo. E parto tranquilo, tenha certeza. Me desculpe por tudo. A culpa não é sua. João Pedro.

 

Li e reli. Seria possível que João Pedro tivesse mesmo se matado? Não havia corpo. O bilhete indicava que em algum momento João Pedro desejou mesmo pôr fim à vida, mas isso foi quase um ano antes dele desaparecer. Precisávamos olhar o quanto antes, em detalhe, o computador do garoto, e o Alfredo podia nos ajudar nisso. Meu palpite era que aquele bilhete, afinal, não tinha a ver com o desparecimento de João Pedro. Olhei para Jaqueline no fundo da sala. Uma nova visão para mais pensamentos intrusivos, pensei. Ela estava linda.

Foi neste momento que Jaqueline avançou em minha direção, decidida. Por um instante pensei que tinha falado alto. Me desconcertei. Eu teria dito que ela estava linda? Pior: teria falado alguma putaria? Jaqueline me olhou nos olhos. Suei.

-Você acha que o João Pedro se matou? – perguntou.
-Não, não acho – respondi aliviado. Esse bilhete aqui só diz que um dia ele pensou em se matar.
-Carlos, esse é o ponto. Eu não acho que ele tenha pensado alguma vez em se matar.
-Você acha que este bilhete não é dele? – perguntei, tocado por ela ter me chamado de Carlos.
-É dele sim, disso eu tenho certeza. Mas esse não é um bilhete suicida.
-Olha Jaqueline, já vi muitos bilhetes assim. Gosto de pensar que reconheço um bilhete suicida quando estou diante de um.
-Carlos, esse menino não queria se matar, ele queria outra coisa. Olha de novo, vê se eu não posso estar certa!

Baixei os olhos. Reli o bilhete de João Pedro. Jaqueline podia ter razão. Me perturbou todo o fim de semana, essa mulher. Agora, parecia que ela me clareava a mente.

(continua…)

Deixe um comentário

Arquivado em Carlão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s