O caso João Pedro – parte três

***
Chegamos ao CONIC com uma foto de João Pedro nas mãos. A ideia era de Jaqueline: “Ele é um fugitivo e não um suicida, Carlos”. De fato, essa não era uma hipótese ruim. Os dados do Alfredo mostravam que a navegação de João Pedro na internet era claramente gay. Há anos. O garoto fuçava de tudo. Dicas de balada, shows, pornografia gay e o escambau. Coisas do mundo queer, disse Jaque. Por outro lado, ele parecia isolado. Não trocava mensagens com ninguém. Não é incomum que as pessoas busquem outra cidade pra fazer uma mudança radical na vida, longe dos olhos da família. O pai de João Pedro, por sua vez, não dava pinta de que aceitaria com facilidade um filho gay. Isso poderia ter feito João Pedro fugir.  Essa era a  hipótese: João Pedro tinha fugido pra sair do armário.

O CONIC é um lugar sensacional. No seu solo neo-pentecostais, skatistas, prostitutas, michês, atores, tatuadores, o pessoal do rock e travestis convivem diariamente. É uma espécie de “Galeria do Rock”, só que mais interessante que a de São Paulo. Mais sujinha, mais popular e definitivamente mais marginal. E fica bem ali, no centro do xis imaginário que fundou Brasília. “Você também é órfã do Cine Atlântida, Jaqueline?”. Não, não era. O Cine Atlântida tinha virado igreja evangélica nos anos 90, e Jaqueline sequer sabia da sua existência. Me senti velho, velhíssimo. Mas animado com a perspectiva de entrar, com Jaqueline, no cinema pornô mais famoso da cidade. A página com os horários das sessões do cinema aparecia sistematicamente, há meses, no histórico de navegação de João Pedro. Por isso começaríamos ali a investigação. Eu, o velhinho, iria entrar com Jaqueline, a novinha, num cinema pornô.

As sessões do cinema eram variadas, ora com o enfoque hétero, ora com o enfoque gay. Tinham filmes, mas também atuações em palco com sexo explícito. Na bilheteria, nenhuma informação sobre João Pedro. A bilheteira trabalhava ali há menos de um mês. Nossa esperança era que João tivesse feito alguma amizade e comentado com alguém os seus planos naqueles meses em que, aparentemente, frequentou semanalmente o cinema. Entramos no meio de uma sessão.

Em tese já sabíamos o que íamos encarar ali. Sexo explícito. Mas não sei se Jaqueline teria imaginado aquilo que vimos. Eu não imaginei, pelo menos. No palco, uma loura de voz rouca com um chicote e um microfone nas mãos, dava o seu show. Música ruim. Música bem ruim e ela repetindo ali pra boca da plateia, pra um grupo em algazarra: “Vem, meu bem, vem provar da pica da Natália, não precisa ter medo não, meu docinho”. Todos riam.

Me sentei imediatamente. E puxei Jaqueline pro meu lado. Sério que tinha essa coisa de falar com a plateia? Meu gesto repentino não passou desapercebido pela loura. “Segura teu homem aí, bonitinha. Olha que já vi machão perder com-ple-ta-men-te a linha quando passa a mão no corpinho de Natália, viu?”. Um pesadelo. Fiquei puto. Natália, uma trava de pau duro falando merda. Por que ela falava aquelas merdas? Meu pau reagiu. Eu ficando de pau duro, imagine. Era inacreditável. E do lado de Jaqueline, francamente! Viva! Aplausos! Finalmente alguém foi lá provar a pica da Natália.  “Ah, meu docinho, você de novo?”. Um cliente fiel calou a boca da traveca. Alívio. Propus à Jaqueline que nos separássemos. Minha gastrite dava pontadas e eu estava irritado. Não queria mais a Jaque ao meu lado.

Cada um com uma foto de João Pedro. Passando pelas fileiras fazendo perguntas. Fiquei com as cadeiras da direita. Ali, homens batendo punheta e homens em pleno troca-troca seriam interrompidos para ver uma foto, responder perguntas. Que ideia. Será que Jaqueline estava bem, estava constrangida? Passei os olhos pelo palco. Natália gemendo, chamando o cara de gostoso.  Do outro lado, Jaqueline, andando pelas fileiras. Parecia estar bem. Nunca precisou de mim, a Jaqueline. E eu ali, vendo o pau duro dos outros pra poder trabalhar.  Meu pau inchando por uma loura de pica. Por uma boneca de cabelo pintado de amarelo. Que novidade absurda. Preguiça de ter que lidar com isso. Com tudo isso. E ainda por cima não ter nenhuma pista de João Pedro. Eu estava doido pra ir embora dali.

Nada nas fileiras. “Vamos embora?” “Falta a Natália, Carlos. Parece que conhece os habituês, quem sabe não conheceu o João Pedro?” Gelei. Coisa que eu não queria era falar com a tal Natália. De todo modo não havia tempo para argumentar com Jaqueline. O show acabava de terminar, as luzes se acendiam. Tivemos que subir no palco atrás da loura. Tive medo, sei lá, de ficar de pau duro de novo, mas não havia saída. De perto, Natália era mais esquisita que de longe. Tinha perdido aquele ar de diva doida, de louraça belzebu que ela tinha em cena. Eu podia relaxar, pensei. E aí senti um imenso cansaço. Jaqueline, com a foto de João Pedro, fazia as perguntas de praxe. Eu, por minha vez, procurava rotas de fuga. Até que entendi. Entendi o que Natália repetia, diante do rosto satisfeito de Jaqueline. “Esse João Pedro que vocês tão procurando, esse aí da foto, esse era eu”.

Claro que era. Se tivéssemos olhado a foto de João Pedro com alguma imaginação, teríamos visto. Me senti velho, de novo, mas sobretudo tapado. “Eu queria outra vida”- Natália nos contava, enquanto quantidades industriais de adrenalina me arrancavam de um torpor ancestral.  “Eu precisava tomar uma decisão”, explicava, “eu precisava sumir”; “a essa altura eu achava que meu pai já teria me esquecido, merda”. Ficamos em silêncio, absorvendo o impacto. Natália andava de um lado pro outro. Nos entreolhamos todos. Sim, havia a questão do pai, afinal. Tinha ficado pra trás a questão do pai. Era um resto a pagar. E Natália sabia disso. Num muxoxo fino, pareceu considerar, depois de alguns minutos. E como se tivéssemos dito algo, respondeu: “Tá, eu vou lá falar com ele, eu vou lá”, pra logo emendar, em terceira pessoa: “Depois dessa bicha aqui se preparar bem, né?”. Pronto. Meu corpo voltou a reagir à sua presença. Fiquei puto. Lá estava de novo a louraça belzebu, falando de cima do salto: “Entendam bem, essa é a estória de um menino que trocou uma vida chata por uma vida de diva, meus docinhos. Isso acontece, tá?”.

***

Jaqueline ficou mais uma semana na minha sala. A arrumação, enfim, terminava. Era melhor do que eu como detetive, a Jaque. E eu disse isso a ela.  Ocupou minha cabeça feito doença, a moça, e tudo deu certo, afinal. Mas o fato é que já estava de saída. Natália. Agora Natália era a obsessão da vez. Lutei contra, devo dizer. Desfiz a cena do cinema em mil pedaços para não ter que ouvir Natália dizer “meu docinho”. Mas ela se repetia na minha cabeça. E a loura era infalível. Me deixava de pau duro sempre com aquele microfone e aquela música de merda que entranhava na mente. “Não precisa ter medo”, ela dizia no meu ouvido. “Não precisa ter medo!”. Ai ai, uma mulher com um pinto, a essa altura. Eu vidrado numa mulher com um pinto, cacete. Natália, louraça pica grossa.

Catei um papel, com raiva, em clima de exorcismo. Rabisquei, desenhei, puto. Peitões e picona. Picona e bunda. Jeba e cabelão. E escrevi Natália embaixo. Arquivar essa merda, é isso. Arquivar essa merda. Corri pro armário com o papel na mão. Arrumação nova, inferno. Soquei o troço na primeira pasta que vi. Agora sim. Arquivada. Natália enfim arquivada. Natália pra sempre arquivada. Olhei a etiqueta da pasta. Não pude deixar de sorrir.  Jaqueline tinha escrito “Literatura” em letra cursiva.

 

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