Arquivo da categoria: Carlão

O caso Regina

“Lembra de mim, Carlos?” Foi isso o que pulou na caixinha do meu whatsApp dias depois de eu começar a entender do que se tratava essa coisa que deixava todo mundo zumbi na rua.  A fotinho fazia lembrar Raquel, uma antiga namorada que, até onde eu sabia, vivia em Goiânia. “Sempre penso em você, consegui teu zap com uma amiga”. Raquel. Claro que eu lembrava. Mil vezes bati punheta pra essa mulher nos últimos anos. Pus o dedo na fotinho pra ver se ficava maior, um truque que o Alfredo me ensinou. Raquel surgiu na minha tela e alguém buzinou atrás. Era eu o zumbi da vez.

Inesquecível, a Raquel. Vestia uma cinta preta com um pinto preto de vinil de vez em quando. Era muito, muito branca, então o contraste era simples e divino. Eu tinha vinte e poucos anos e me lembro de dizer “Show!” toda vez que via Raquel assim na minha cama. Eu era um moleque. Taí. Uma mulher com um pau, de novo, na minha mente. Isso é coisa antiga, ao que parece. “Não quer vir à Goiânia?”. Tosco. Que ideia absurda. Resolvi não responder nada até chegar em casa. Tava quase batendo o carro por causa dessa porra.

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O caso João Pedro – parte três

***
Chegamos ao CONIC com uma foto de João Pedro nas mãos. A ideia era de Jaqueline: “Ele é um fugitivo e não um suicida, Carlos”. De fato, essa não era uma hipótese ruim. Os dados do Alfredo mostravam que a navegação de João Pedro na internet era claramente gay. Há anos. O garoto fuçava de tudo. Dicas de balada, shows, pornografia gay e o escambau. Coisas do mundo queer, disse Jaque. Por outro lado, ele parecia isolado. Não trocava mensagens com ninguém. Não é incomum que as pessoas busquem outra cidade pra fazer uma mudança radical na vida, longe dos olhos da família. O pai de João Pedro, por sua vez, não dava pinta de que aceitaria com facilidade um filho gay. Isso poderia ter feito João Pedro fugir.  Essa era a  hipótese: João Pedro tinha fugido pra sair do armário.
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O caso João Pedro – parte dois

(…)

No fim de semana que entendi que aquilo era uma espécie de ocupação. Jaqueline tinha se enfiado completamente no meu pensamento. Tudo, realmente tudo o que eu pensava ou fazia vinha junto com a imagem dela. Andar na rua, me vestir, comer. Tudo contaminado. Eu andava por aí de pau duro há dois dias. Entrava no banho pra me acalmar, e lá vinha a moça. Abria um livro, e lá vinha a moça. Ficava quase chato, até. Mas o tesão era incrível. Tinha hora que era como se eu a pudesse ver, como se já estivéssemos estado juntos. Jaqueline era uma alucinação, uma alucinação travestida de lembrança. Continuar lendo

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O caso João Pedro – parte um

No momento em que ela entrou na minha sala, tive a certeza de que não daria certo. Há muito tempo eu precisava de alguém para organizar meus livros, arquivar minha papelada, mexer naquele monte de papéis de tantos anos. Eu não tenho cabeça pra isso. Arrumar nada mais é do que classificar as coisas – uma namorada me ensinou isso. Acontece que classificar as coisas não é pra qualquer um. Sempre sobra um monte de coisas irritantes, inclassificáveis. Minhas alergias também são impeditivas. Eu morro se for mexer em tanto papel velho. Foi mais ou menos por isso que concordei com a sugestão do Alfredo, de que eu devia contratar alguém. Só por algum tempo. Uma arquivista. Mas tive a certeza de aquilo não ia dar certo. Assim que ela entrou.

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O Caso Isabel

-Eu não sei bem como explicar o que eu quero discutir com você, é um assunto de trabalho, mas também é pessoal e também, sei lá, filosófico.

-Você parecia mesmo meio esquisito no telefone. Vai, começa do início. Tô de boa.

-Certo. Começa com um cara chamado Júnior me procurando na minha sala. O problema: ele tem uma namorada, com quem vai casar ainda este ano, mas está num dilema, porque acha, e eu repito o que ele disse, que “ela não está se guardando” para o casamento.

-Mas isso é comum, né, contratar detetive pra descobrir traição, coisa assim?
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