Arquivo da categoria: Estorinha

Querido diário*

*com os cumprimentos de R.M.L.

 

Querido diário, sabe o Júnior? Tá aqui, bem na minha frente, andando pra lá e pra cá com a Claudinha pela casa, como se nada tivesse acontecido. Ai, como é bobinha a Claudinha, diário. Três anos mais velha que eu, mas como é bobinha! Não quer dar pros namorados, não quer. Fala que não quer, acha feio. É cheia de ais e ós, fala que não isso, que não aquilo, que chata! Que ridícula. Um dia perde o namorado por causa disso. Eu nunca vou perder um namorado por causa disso, querido diário, não vou. Mamãe apoia ela, fala que é pra ela se guardar. Mas eu não vou fazer isso não, Claudinha que se lixe. Se ela não dá, eu dou. E pronto. Continuar lendo

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A estória da escada

Você só entrava na piscina pra ajeitar sua buceta de frente pro jato d’água, é isso que eu sei. Você tinha oito anos. E metia a buceta lá, na saída da água. Devia fechar os olhos, de bom que era. Você acha que não fechava os olhos. Mas fechava. E todo mundo te via, eu acho. Sua buceta devia ficar inchada, entendeu?  O biquini mostrava tudo, com certeza. Homem vê isso. A bucetinha marcando a calcinha. Você sabe que no dia que você voltou da piscina você tava com a buceta mexida. E foi por isso que o menino te pegou. E te beijou na escada.
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Nelsinho

Nelsinho olhou bem. E de novo. Se afastou, firmou o olhar. Quando afundou a língua é que formulou o pensamento: essa é a buceta mais maravilhosa que eu já vi.

Já tinha visto e provado muitas. Começou cedo, com a de dona Nonó. Dona Nonó morava na mesma rua que Nelsinho, quando ele era garoto. E gritava o Nelsinho da janela do segundo andar pelo menos duas vezes por semana. Esperava o menino aparecer na rua e arremessava o dinheiro amassado. Cigarro e pinga, era essa a encomenda. Nelsinho subia correndo as escadas, já com o pacote nas mãos. Dona Nonó nunca pedia o troco. Servia a pinga num copinho colorido, acendia um cigarro e se acomodava na espreguiçadeira. “Você me faz aquela gentileza, Nelsinho?”, dizia. “Claro, dona Nonó, é pra já!”, Nelsinho respondia.

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No bloco S

– “Vou dar uma geral nas câmeras de segurança” – Essa era senha para que Malu se apressasse.

Maria Luíza era a filha menor do casal de porteiros do Bloco S da 309. O pai dava uma geral nas câmeras de segurança todas as segundas-feiras, perto do meio dia, justo quando ela estava almoçando. Por causa isso, nesses dias, ela tinha que engolir a comida de qualquer jeito. Em 15 ou 20 minutos tinha que estar na portaria, embaixo da mesa do computador, quieta e posicionada. Não era fácil correr para chegar à tempo e logo depois ter que controlar a respiração. Mas Malu aprendeu a gostar do gosto do risco, e mais ainda, do gosto do comando. Às vezes corria em desabalo apenas para ter o prazer de se recompor. Aprendeu a se aquietar à força. Aprendeu a se esconder.

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Sete Meninos

Sete meninos numa roda, batendo punheta. Foi isso que Armando viu quando abriu a porta do quarto. Fechou rápido, com barulho. Levou a mão ao coração. O que tinha visto? Não sabia ao certo. Na porta, vibravam os últimos gritos dos garotos. “Fechessaportaaaa”! Indo na sua direção, o Guga. Quis morrer, mas ao invés disso, correu.

Correu pra bem longe. Pro jardim. Pra proteger os meninos? Não sabia. Guga atrás, Guga sempre atrás: quer brincar? Não queria. O que tinha visto, meu deus? Deitou-se na grama. Como Guga insistisse, aceitou o desafio de olhar pro sol. Quem sabe cegasse o chato do Guga. Fechou então os olhos. Deixou-se brincar no vermelho sangue. Contou: um, dois, sete. Sete ou seis. Com os pintos na mão. Bafo quente, suores. E rostos contorcidos. Olhou pro lado e lá tava Guga de novo. Olhando pra ele. Aquele garoto grudava. Tomou duas decisões. Primeiro ia se livrar do Guga; depois ia lá de novo, meter a mão na maçaneta.

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Os Pintos de Eunice

Invariavelmente, Eunice dizia: Só brinco se mostrar o pinto. Todo jogo, toda brincadeira, era isso. Se os meninos não mostrassem o pinto, Eunice não brincava. Com as meninas não tinha disso. Eunice só queria mesmo era ver os pintos. As amigas, num misto de solidariedade, excitação e nojo, ajudavam. Afinal, Eunice era uma amiga formidável. Formavam uma rodinha, traziam o menino pro meio e tudo se resolvia.

A maioria dos garotos tratava o rito com pouca curiosidade. Baixavam o short e olhavam pra cima. Quando Janice dizia “ok”, se vestiam e saiam correndo. Janice, é bom que se diga, era a melhor amiga de Eunice. Desde que Eunice gaguejou numa rodinha, Janice tinha assumido os trabalhos. Era ela que organizava a fila, botava ordem na roda, vigiava para ver se vinha algum adulto. Eunice, por sua vez, olhava. As outras meninas, essas davam risinhos.

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